Diz o povo que devagar se vai ao longe. Piaçabuçu já foi tão longe nesse devagar que daqui a pouco chega no mar, e olhe que a cidade mora justamente onde o São Francisco desemboca. O rio sabe a hora de chegar. O processo, pelo jeito, ainda não.
Faz mais de um ano que a cidade vive pendurada numa decisão. Em agosto, o TRE-AL manteve por unanimidade a cassação do prefeito Rymes Marinho Lessa e do vice Carlos Ronalsa Beltrão Coelho da Paz, por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024. A cassação, no tribunal, já foi decidida. O que falta é o passo seguinte: quando e como o eleitor volta para a urna. O processo já passou pelas mãos de vários desembargadores, e na última sessão sobre esse ponto Klever Rêgo Loureiro pediu vista. Ainda não há data para o caso voltar à pauta. É um direito legítimo, e ninguém quer juiz decidindo no susto. Mas, enquanto o tribunal pensa, a cidade espera.
Hoje a cadeira está com o presidente da Câmara, Wisney André, como interino. Interino, com prazo de validade desconhecido. Governar sem saber se fica um mês ou um ano é como plantar sem saber se vai chover: dá para fazer, mas ninguém planta coqueiro.
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Eu conheço esse filme por dentro. Em 2004 eu trabalhava em Rio Largo, e mais de uma vez a gente dormia com uma prefeita e acordava com outra. Elisa e Vânia se revezavam no poder a cada liminar, e foi assim até sair a nova eleição. Em 2009, foi a vez de Craíbas ter o prefeito afastado, e a legislação da época botou o segundo colocado como gestor interino. Mudam a cidade, os nomes e as regras, mas a angústia é a mesma.
Quem paga essa conta não é quem está no processo. É o servidor que não sabe se o chefe de amanhã vai manter o que o de hoje combinou. É o comerciante que segura a compra porque não sabe se a prefeitura vai pagar o fornecedor em dia. É a mãe que espera a obra da creche andar, e a obra espera uma assinatura que ninguém tem coragem de dar. Uma cidade em suspenso não para de uma vez, ela vai parando aos poucos.
Rui Barbosa deixou escrito na Oração aos Moços que justiça atrasada não é justiça, “senão injustiça qualificada e manifesta”. Não é recado para ninguém em particular, é para o sistema inteiro.
Quando o processo voltar à pauta, pode ser o último capítulo ou só mais um. A defesa tem todo o direito de usar os recursos que a lei permite, e a decisão ainda pode ser suspensa por uma instância superior. Mas Piaçabuçu também tem direito a uma coisa simples: saber quem governa, por quanto tempo e quando escolhe de novo. Novela boa tem final. Novela que só ganha temporada nova vira castigo.

