Jornalistas, comunicadores, lideranças e representantes da sociedade civil participaram, na manhã desta terça-feira (29), de um ato em defesa da liberdade de imprensa e do livre exercício profissional em Alagoas. A mobilização aconteceu no restaurante Casa de Mãinha, no bairro de Jaraguá, em Maceió; e discutiu o impacto de ações judiciais sobre a atividade jornalística durante o período eleitoral.
O encontro ocorre em meio a uma sequência de disputas judiciais envolvendo profissionais, veículos de Comunicação e grupos ligados à candidatura de João Henrique Caldas, o JHC (PSDB). Levantamentos informais divulgados por jornalistas independentes e advogados apontam mais de 180 ações envolvendo a categoria.
Parte das disputas está relacionada à cobertura jornalística sobre assuntos envolvendo a gestão de JHC na Prefeitura de Maceió. Entre eles, a aplicação de recursos do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió (Iprev Maceió) no Banco Master. Reportagens e comentários sobre o assunto passaram a ser questionados judicialmente.
A jornalista Fátima Almeida defende o direito de resposta como caminho para contestar possíveis erros jornalísticos, ao invés da retirada de conteúdos do ar.
“Quem tem argumento vai lá e pede o direito de resposta. É assim que você combate o erro de jornalismo. Não é tirando o conteúdo do ar. Se você tem argumento, vai pedir o direito de resposta. Esse é o caminho”.
Fátima afirma que a liberdade de imprensa deve ser tratada como uma pauta de toda a sociedade e destacou a relação entre o tema e a democracia. “Quem defende a Democracia e a cidadania, defende também a liberdade de imprensa. Essa é uma pauta não só nossa, jornalistas, mas de toda a sociedade e também dos políticos.”
“Não podemos perder a capacidade de nos indignarmos com determinadas situações. Isso não é normal, isso não é comum, e a gente não pode deixar que uma situação dessas se normalize”, conclui.
O jornalista e ex-secretário de Estado da Comunicação, Joaldo Cavalcante, relaciona o atual cenário as dificuldades históricas enfrentadas pela imprensa. Para ele, o conflito entre profissionais de Comunicação e pessoas que ocupam posições de poder não é recente.
“Eles não gostam de ser escrutinados. Em regra, quem está no poder não gosta do escrutínio público, que, em uma certa época, era feito basicamente pela imprensa. Os meios de Comunicação convencionais faziam a interlocução com a sociedade.”
Joaldo também chama atenção para as mudanças provocadas pelas novas tecnologias e para a disseminação de informações falsas ou fora de contexto. “Viveemos uma outra situação, em que todos estão, pelas contingências e circunstâncias das novas tecnologias, fazendo um pouco do papel de repórter. Alguns dando mau exemplo, produzindo fake news, recortes de contextos.”
O jornalista defende a valorização da formação profissional e diz que o desafio é fortalecer a própria profissão. “Foi isso o que estávamos conversando aqui: o desafio de recuperar, restabelecer não a dignidade dos profissionais, mas a dignidade da profissão. É preciso que ela volte a ser respeitada institucionalmente.”
Joaldo encerra sua análise fazendo uma comparação com períodos anteriores da história brasileira. “O que nós estamos vendo aí é uma espécie. Se havia os coronéis e os marechais, agora é uma espécie de cangaceirismo à solta, sendo praticado.”
A mobilização ocorre também após decisões recentes da Justiça Eleitoral envolvendo conteúdos publicados por veículos e perfis durante a campanha. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) determinou a suspensão da programação normal de nove rádios e o bloqueio de dez perfis nas redes sociais até o fim do primeiro turno, em investigação sobre possível uso indevido dos meios de comunicação em benefício da candidatura de JHC. A medida é cautelar.
De acordo com informações foram analisadas 2.372 inserções de rádio e 2.313 publicações em redes sociais. As alegações ainda serão checadas no decorrer do processo.
Para os participantes do ato, a sequência de disputas reforça a necessidade de discutir os limites entre o direito de recorrer à Justiça e a garantia da liberdade de imprensa durante o período eleitoral.
Ao final da mobilização, o jornalista João Mousinho agradeceu a participação dos comunicadores, da sociedade civil e do Sindicato dos Advogados. “Quero agradecer publicamente o engajamento dos comunicadores, sociedade em geral e do Sindicato dos Advogados que sempre estiveram, de verdade, em defesa dessa causa. A história fará o favor de colocar cada um no seu devido lugar. Viva o estado democrático de direito!”.
Por Redação.

