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A globalização tem várias facetas: a política, a econômica, a comportamental e também a biológica. Esta última, invisível até impor agravos, é muito bem representada pelos vírus. Se uma região do mundo é assolada por uma moléstia infecciosa, em tese nenhum lugar está imune ao problema. Que o diga o sarampo, um dos patógenos mais transmissíveis de que se tem notícia.

Enquanto as pessoas estão protegidas com a vacina, ele pode ser devidamente controlado.

Mas basta uma brecha nas barreiras médicas para o microrganismo se espalhar, ameaçando sobretudo crianças pequenas. E é essa doença, que parecia sumida em terras brasileiras, que voltou a ganhar escala recentemente, disseminada a partir da América do Norte, incluindo a nação que hoje lidera movimentos de boicote à imunização, os Estados Unidos.

O cenário é preocupante. Já vivemos um dos maiores surtos na região nas últimas duas décadas, com ao menos 24 casos registrados no Brasil — e dezenas de milhares em países acima da Linha do Equador. E tudo pode piorar: em um movimento que contraria a ciência, o presidente americano Donald Trump assinou uma ordem que prevê a redução dos imunizantes obrigatórios a crianças nos EUA e o desmembramento da vacina contra o sarampo para aplicação em doses separadas, o que pode afetar a adesão adequada às picadas. A infecção se alastrou nas Américas do Norte e Central e conquistou novos terrenos com o maior fluxo de viagens propulsionado pela Copa do Mundo, cujas sedes já registravam aumento nos casos. Até o momento, mais de 50 000 episódios foram contabilizados, mais que o triplo das notificações em 2025, sendo que 95% dos registros se concentram na Guatemala, no México, nos Estados Unidos e no Peru. Os primeiros tentáculos do surto não poupam o Brasil. “O sarampo é muito contagioso: entre não vacinados, um indivíduo pode passar o vírus para outros dezoito”, diz o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente da Câmara Técnica de Eliminação do Sarampo do Ministério da Saúde.

Por aqui, com a identificação de pacientes infectados na Grande São Paulo, foi iniciada uma campanha para saturação do vírus, o que inclui a adoção da chamada “dose zero” quando a vacina é aplicada em bebês com mais de 6 meses, um semestre antes da idade prevista para o início do esquema vacinal. A iniciativa prevê picadas para a população até 59 anos. O objetivo é evitar um surto, que poria em risco a vida de crianças e levaria à perda do certificado de nação livre da circulação endêmica do sarampo, recuperado pelo Brasil em 2024. “Em 2019, nós perdemos o certificado por causa de um surto que começou em São Paulo. Isso não teve ação firme e chegou a 20 ooo infectados” recordou, em pronunciamento, o ministro da Saúde Alexandre Padilha. “Em 2025, nós não deixamos que 38 casos importados se transformassem em surtos e, em 2026, vamos travar essa luta de novo.” Segundo o chefe da pasta, a cepa viral que circula no país veio justamente dos EUA e do Canadá.

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