Em política, às vezes a pergunta vale mais do que a resposta. E uma pesquisa online que circula em Alagoas nesta semana está fazendo exatamente isso: perguntando demais sobre o Senado e deixando no ar uma dúvida incômoda para quem ainda trata João Henrique Caldas, o JHC, como pré-candidato natural ao Governo do Estado.
O levantamento é atribuído ao MT Dados, empresa de inteligência estratégica baseada em dados, com sede em Cuiabá, capital de Mato Grosso. O detalhe geográfico não passaria de mera informação cadastral se não houvesse um tempero político no meio: Cuiabá é a terra de Marina Cândia, esposa deJHC.
A redação acessou o questionário online nesta quinta-feira, 25 de junho, e encontrou perguntas específicas sobre a eleição de Alagoas, com forte concentração na disputa pelo Senado da República. Em uma das telas, o formulário pergunta diretamente se, “caso JHC, por decisão do seu partido, o PSDB, e do seu grupo político, seja candidato ao Senado”, o eleitor votaria nele para uma das
vagas em disputa nas próximas eleições.
As alternativas eram: “sim, votaria com certeza”, “poderia votar”, “não votaria” e “não sabe/não respondeu”.
A pergunta, por si só, já é politicamente venenosa. Afinal, JHC é tratado por aliados como pré-candidato ao Governo de Alagoas, mas até hoje evita uma declaração pública, direta e definitiva, de própria voz, cravando que será mesmo candidato ao Palácio República dos Palmares. Os aliados falam por ele, os apoiadores o empurram para a disputa, as redes sociais sugerem o caminho, mas a palavra final, dita sem intermediários, ainda não veio.
E quando uma pesquisa aparece testando seu nome para o Senado, a esta altura do campeonato, às vésperas do período de convenções eleitorais, a pergunta que fica é inevitável: há dúvida no próprio grupo sobre o melhor destino eleitoral de JHC?
As telas verificadas pela reportagem mostram que o questionário não trata o Senado como tema lateral. Ao contrário. Em outro momento, o levantamento apresenta uma lista de nomes para o primeiro voto ao Senado, incluindo Davi Davino, Arthur Lira, Alfredo Gaspar, Renan Calheiros, JHC e Dr.
Wanderley, além das opções “não sabe/indeciso” e “nulo/branco”.

Em seguida, o formulário repete a lógica para o segundo voto ao Senado. Mais uma vez, JHC aparece entre as opções. Ou seja: não se trata de uma pergunta solta, perdida no meio de um questionário genérico. O desenho sugere uma medição organizada da viabilidade do nome de JHC para a Câmara Alta.

Mas o roteiro fica ainda mais curioso.
Em outra tela, o questionário pergunta qual é a “probabilidade real” de o eleitor votar em cada possível candidato ao Senado Federal.
Nessa lista aparecem Arthur Lira, Dr. Wanderley, Dra. Eudócia, Marina JHC, Renan Calheiros, Davi Davino, Alfredo Gaspar e o próprio JHC.

A presença de Marina Cândia e de Eudócia
Caldas no mesmo tabuleiro amplia a temperatura política do levantamento. Marina é esposa de JHC. Eudócia é mãe de JHC e ja ocupa mandato no Senado. A pesquisa, portanto, não apenas testa o ex-prefeito de Maceió para o Senado, como também coloca seu núcleo familiar no radar da disputa.
É aqui que a política deixa de ser tabuleiro e vira xadrez com peças escondidas.
A reportagem não afirma que a pesquisa tenha sido encomendada por JHC, por familiares, por aliados ou por qualquer integrante de seu grupo político. Até o momento, as telas acessadas não indicam publicamente quem contratou o levantamento, qual a finalidade da sondagem, qual o universo de entrevistados, nem se há metodologia científica consolidada por trás do questionário online.
Mas o fato político existe.

