O presidente da Argentina, Javier Milei, provocou indignação ao ironizar as dificuldades financeiras enfrentadas por milhões de cidadãos. Durante um discurso realizado em Neuquén, nesta segunda-feira (19), o líder argentino questionou relatos de pessoas que afirmam ficar sem dinheiro antes do fim do mês e colocou em dúvida como essas famílias conseguem atravessar os dias seguintes.
“Se realmente ficam sem dinheiro no dia 20, como conseguem viver dez dias sem comer e sem beber?”, declarou Milei. Na mesma fala, o presidente classificou esse tipo de afirmação como uma “estupidez do tamanho de uma casa”. A declaração gerou críticas por tratar com ironia uma situação que, segundo levantamentos citados sobre a economia argentina, afeta uma parcela expressiva da população.
Os números ajudam a dimensionar o contexto em que a fala ocorreu. De acordo com dados atribuídos ao Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), 32,3% da população vivia abaixo da linha da pobreza no primeiro semestre de 2026. A extrema pobreza alcançava 7,5% dos argentinos, enquanto 44,5% das crianças de até 14 anos estavam nessa condição.
Além dos indicadores de pobreza, uma pesquisa da consultoria Zentrix apontou que 65,3% dos entrevistados ficam sem dinheiro até o dia 20 de cada mês. Entre as pessoas de menor renda, o percentual sobe para 83,3%, indicando que a dificuldade de manter as despesas até o recebimento de novos recursos é ainda mais intensa entre os grupos socialmente vulneráveis.
O levantamento também identificou um recurso frequente ao endividamento para lidar com o orçamento doméstico. Segundo a pesquisa, 56,2% dos entrevistados recorreram a empréstimos ou a outras formas de crédito nos seis meses anteriores. Entre aqueles que se endividaram, 55,1% utilizaram o dinheiro para despesas essenciais, como alimentação e saúde.
Os dados do sistema financeiro reforçam o cenário de pressão sobre as famílias. Informações atribuídas ao Banco Central da Argentina indicam que 12,81% do crédito bancário concedido às pessoas físicas estava em situação irregular em agosto de 2026. O indicador aponta dificuldades no pagamento de compromissos financeiros, embora, isoladamente, não explique as causas do atraso nem represente a situação de todas as famílias argentinas.
A fala de Milei coloca em evidência o contraste entre o discurso presidencial e a experiência relatada por cidadãos que enfrentam dificuldades para custear necessidades básicas. Quando o dinheiro termina antes do fim do mês, as consequências podem incluir o adiamento de contas, o uso de empréstimos para compras essenciais e a redução de gastos com alimentação, saúde e outros itens indispensáveis.
O episódio também reacende o debate sobre o custo social das medidas econômicas adotadas pelo governo argentino. Desde que assumiu a Presidência, Milei defende uma agenda de ajuste fiscal, redução do tamanho do Estado e mudanças na política econômica. A avaliação dos efeitos dessas medidas exige considerar indicadores de inflação, renda, emprego, pobreza e consumo, além das diferenças entre os grupos sociais.
Embora os números apresentados indiquem que a falta de recursos até o fim do mês é uma realidade para muitos argentinos, a declaração do presidente não detalha como o governo pretende responder às dificuldades relatadas. A repercussão da fala amplia a pressão sobre a administração Milei em torno de um tema central para a população: a capacidade de pagar as despesas básicas e manter condições mínimas de vida.
Fonte: @metropoles

