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O câncer do colo do útero é uma das principais ameaças à saúde feminina no Brasil, apesar de poder ser prevenido com vacinação contra o HPV, vírus associado à quase totalidade dos casos. A desinformação e o preconceito em torno da imunização, porém, ainda representam obstáculos para ampliar a proteção de meninas e meninos e reduzir a ocorrência da doença.

“É assustador o número de casos de câncer do colo do útero no Brasil, uma doença que já não deveria existir, porque tem como uma das causas um vírus que pode ser prevenido por vacina”, afirma a oncologista clínica Candice Lima, da Oncologia D’Or. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de vacinar 90% das meninas contra o papilomavírus humano (HPV) até os 15 anos, como parte da estratégia para eliminar o câncer cervical como problema de saúde pública até 2030. No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos.

Apesar dos avanços na imunização, o país ainda não alcançou a meta. Em 2025, a cobertura vacinal chegou a 86,22% entre as meninas e a 74,55% entre os meninos nessa faixa etária. A doença segue entre os tumores mais frequentes na população feminina: sem considerar o câncer de pele não melanoma, ocupa a terceira posição no Brasil e a segunda nas regiões Norte e Nordeste. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 19.310 novos casos no país até o fim do ano, segundo os dados citados no levantamento original.

Fake news alimentam resistência à vacina

A falta de informação sobre o HPV e a vacina contribui para a baixa adesão. Um estudo realizado em escolas públicas e privadas do Nordeste, com 17.805 estudantes de 13 a 17 anos, identificou que 45,54% dos participantes desconheciam a imunização. Segundo Candice Lima, notícias falsas sobre possíveis efeitos colaterais alimentam a resistência de parte das famílias. Outro entrave é o receio de que vacinar crianças e adolescentes contra uma infecção sexualmente transmissível incentive o início precoce da vida sexual. Não há, porém, fundamento para associar a vacinação a esse comportamento.

A resistência também é observada em outros países. Na França, em 2023, a cobertura vacinal contra o HPV foi de 54,6% entre meninas e 15,8% entre meninos. Pesquisas identificaram a desinformação dos pais, a percepção de que os filhos ainda são muito jovens para correr riscos e o medo de efeitos adversos entre os fatores que dificultam a imunização.

Experiências internacionais mostram que campanhas educativas podem ajudar a ampliar a cobertura. Austrália, México e Peru adotaram iniciativas de conscientização que contribuíram para alcançar taxas superiores a 80%, de acordo com os dados apresentados no material. A divulgação em ambientes digitais e nas redes sociais também pode aproximar as informações dos adolescentes e de suas famílias.

Cânceres ginecológicos afetam saúde física e emocional

O câncer do colo do útero faz parte de um grupo de doenças que inclui ainda os tumores de endométrio, ovário, vulva e vagina. Segundo dados do Observatório Global de Câncer (Globocan), os cânceres ginecológicos somaram mais de 1,4 milhão de novos casos entre mulheres no mundo em 2022.

Além dos efeitos físicos, esses diagnósticos podem afetar a autoestima, a imagem corporal, a sexualidade e os relacionamentos. Estudos também apontam maior risco de sofrimento psicológico entre mulheres que passaram por tratamentos contra tumores ginecológicos, reforçando a importância de um cuidado que considere tanto a saúde física quanto a emocional.

O câncer de endométrio, que atinge o tecido que reveste a parte interna do útero, está associado a fatores como obesidade, diabetes e hipertensão. Já o câncer de ovário pode evoluir sem sintomas específicos nos estágios iniciais. Quando aparecem, os sinais podem incluir dor ou pressão abdominal, aumento do volume da barriga e alterações urinárias ou intestinais. Os tumores de vagina e vulva são menos frequentes, mas parte deles também está associada ao HPV. Por isso, a prevenção e a atenção à saúde ginecológica são importantes mesmo quando não há sintomas aparentes.

Teste de HPV amplia as opções de rastreamento

A prevenção do câncer do colo do útero também depende do rastreamento. Durante anos, o principal método utilizado no país foi o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico, que identifica diretamente o material genético de tipos do vírus associados ao desenvolvimento do câncer.

As diretrizes nacionais passaram a recomendar o teste como método primário de rastreamento, com implementação progressiva a partir de 2025. Durante a transição, o Papanicolau continua sendo utilizado. A periodicidade dos exames deve seguir as orientações de saúde vigentes e a avaliação de cada paciente. O rastreamento permite identificar a presença do vírus ou alterações que precisam ser investigadas, mas não substitui a avaliação ginecológica. Quando há suspeita de lesões, podem ser necessários exames complementares e biópsia.

Vacinação protege contra outros tipos de câncer

A vacina contra o HPV é uma das principais ferramentas para prevenir o câncer do colo do útero e também ajuda a proteger contra outros tumores relacionados ao vírus, que podem atingir regiões como a orofaringe, o canal anal e o pênis. “Precisamos continuar a divulgar a vacinação contra o HPV e desfazer as fake news sobre a vacina”, reforça Candice Lima. Para a oncologista, ampliar o acesso à informação confiável é essencial para aumentar a adesão à imunização e reduzir o número de casos de doenças que podem ser prevenidas.

Fonte: @correio24horaa

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