Para quem vive a angústia de ter um familiar desaparecido, o tempo costuma ser contado de outra forma. Cada hora sem notícias aumenta a incerteza e prolonga uma dor silenciosa que acompanha milhares de famílias brasileiras.


Em Alagoas, essa espera encontra uma rede de apoio coordenada pelo Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL): o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID/AL), vinculado ao Núcleo de Apoio às Vítimas e Desaparecidos (Navid).
Desde sua criação, em 2018, o programa já solucionou 2.214 casos, do total de 4.315 registros cadastrados no Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos (Sinalid).
O número representa mais da metade de todos as ocorrências acompanhados pelo PLID/AL e evidencia o alcance de um trabalho que vai muito além da divulgação de pessoas desaparecidas: ele devolve nomes, histórias e vínculos familiares.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa atuação foi o reencontro de Edson Almeida Nunes com a família, ocorrido nessa quinta-feira (16 de julho, após mais de 40 anos de separação. O idoso havia perdido a memória depois de um atropelamento e passou décadas sem conseguir informar quem era ou localizar os parentes.
A identificação só foi possível graças à força-tarefa articulada pelo MPAL, por meio do PLID/AL, em parceria com a Polícia Federal e o Instituto de Identificação do Distrito Federal.
A confirmação da identidade de seu Edson ocorreu após a realização de um exame de pesquisa e confronto de impressões papilares, conduzido por dois papiloscopistas da PF. A perícia foi realizada em 17 de junho deste ano, a partir de requisição feita PLID/MPAL, tendo obtido resultado menos de sete horas após a chegada da solicitação.
Casos antigos com novas tecnologias
Além das investigações em andamento, o PLID/AL iniciou uma ampla força-tarefa para revisar desaparecimentos antigos registrados no Sinalid.
Até 30 de agosto, equipes do programa estarão realizando a revisitação de todos os casos de desaparecimento anteriores a 2014, utilizando meios de investigação mais modernos e eficientes, inclusive coleta de DNA, cruzamento de dados biométricos, comparação de impressões digitais e integração com bancos nacionais de identificação.
Segundo a coordenadora do programa, promotora de Justiça Marluce Falcão, 2.102 casos já foram revisitados e finalizados. A meta é que, até o final deste ano, todos os registros ainda não concluídos passem por nova análise.
Perfil dos desaparecimentos em Alagoas
Os dados do Sinalid/PLID revelam características marcantes do fenômeno no estado. Quase 70% das pessoas desaparecidas são homens, enquanto as mulheres representam cerca de 30% dos registros.
Já o recorte racial mostra que 83,33% dos desaparecidos são pardos. Em relação à idade, a maior incidência ocorre entre adultos de 31 a 40 anos, faixa que concentra 31,25% dos casos. Adolescentes entre 12 e 17 anos representam 18,75%, seguidos por jovens de 18 a 24 anos.
Outro dado que chama atenção é a dificuldade em identificar as causas. Em 40,38% das ocorrências não há motivo aparente para o desaparecimento. Entre os casos em que existe uma motivação identificada, os conflitos intrafamiliares aparecem como principal fator, seguidos por possíveis vítimas de homicídio, problemas psiquiátricos e suspeitas de sequestro.
Casos encerrados
Entre os casos encerrados pelo PLID/AL, 42,91% correspondem ao retorno voluntário da pessoa desaparecida, fato que é considerado positivo pela coordenação. Outros 22,76% envolvem pessoas encontradas acolhidas em instituições, como abrigos para idosos e casas de acolhimento para crianças e adolescentes. Os óbitos representam o menor número, ficando com 13,06% dos casos.
Para Marluce Falcão, cada desfecho representa uma resposta para famílias que conviviam com a incerteza, ainda que a notícia nem sempre seja a esperada.
Por Redação com informações do MPAL

