O futebol sempre foi mais do que um jogo. Na América Latina, ele expressa identidades nacionais, disputas simbólicas, rivalidades históricas e paixões coletivas. Brasil e Argentina construíram uma das maiores rivalidades do esporte mundial, e ninguém é obrigado a torcer pelo rival. Isso faz parte da cultura do futebol.
O problema começa quando o debate deixa de ser esportivo e passa a ser seletivo. É legítimo condenar episódios de racismo praticados por torcedores argentinos, assim como qualquer manifestação racista em qualquer lugar do mundo. O racismo precisa ser combatido com firmeza, sem relativizações.
Mas é preciso também olhar para dentro. O Brasil, infelizmente, convive diariamente com um racismo estrutural que produz desigualdades profundas. Jovens negros são as principais vítimas da violência letal, pessoas negras enfrentam maiores barreiras de acesso à educação, ao mercado de trabalho, à saúde e à justiça. Em muitos casos, o racismo não apenas limita oportunidades: ele reduz a expectativa de vida e impede que milhares de brasileiros envelheçam com dignidade.
A indignação seletiva pouco transforma a realidade. Não basta denunciar o racismo quando ele veste a camisa da seleção adversária. É preciso enfrentá-lo quando ele mora na nossa rua, atravessa nossas instituições e determina quem vive, quem morre e quem tem direito ao futuro.
Que a rivalidade entre Brasil e Argentina permaneça nos gramados. Mas que a luta contra o racismo ultrapasse as fronteiras, as bandeiras e as conveniências. Porque o verdadeiro adversário não é a camisa do outro país. É um sistema que continua produzindo exclusão, violência e desigualdade em toda a América Latina e no mundo.
Por Danúbia Barbosa
Socióloga

