Um médico da rede pública de Piracicaba prescreveu “igreja” e “cuidar de si” em uma receita para um paciente de 22 anos atendido na UPA da Vila Sônia na segunda-feira, 8 de junho.

Segundo o relato do jovem ao g1, o profissional associou dores abdominais e paralisia facial a um quadro de ansiedade e indicou fluoxetina 20 mg, com a observação de que o remédio só deveria ser usado se todo o esquema orientado fosse seguido.
A Prefeitura de Piracicaba informou que vai avaliar administrativamente a conduta e afirmou que o paciente recebeu avaliação clínica integral, com a recomendação religiosa inserida, segundo a Secretaria de Saúde, como orientação complementar de autocuidado e suporte emocional.
O paciente disse ao g1 que não tem histórico de ansiedade, não conversou sobre religião na consulta e que buscou atendimento em outra unidade após a consulta na UPA da Vila Sônia.
Ao g1, o paciente, que não será identificado pela reportagem, disse que não tem histórico de ansiedade e que não mencionou religião durante a consulta, nem deu abertura para essa abordagem, apesar de ser de família cristã.
Ele relata estar há mais de um mês com dores e sem um diagnóstico fechado. Durante o atendimento na UPA, ele disse que o médico teve um comportamento ríspido e afirmou que poderia se tratar de um quadro de ansiedade e depressão.
Além de mencionar na receita, o funcionário da unidade de saúde teria verbalizado a recomendação para prática religiosa e, segundo o paciente, menosprezou os relatos de dores físicas.
Em nota, a Prefeitura de Piracicaba afirmou que essa recomendação para atividades religiosas ocorreu de forma complementar para “fortalecer hábitos saudáveis, oferecer suporte emocional e manter vínculos sociais e comunitários”, o que, segundo a nota, pode “contribuir positivamente para o bem-estar de determinadas pessoas, de acordo com suas convicções e escolhas individuais”.
O caso
O paciente disse que procurou a unidade de saúde no domingo (7) com fortes dores abdominais, no ouvido e na cabeça, além de paralisia facial.
Nesse primeiro atendimento, ele disse que foi avaliado por uma mulher, que o medicou para dor e solicitou que ele retornasse na unidade na segunda-feira para nova avaliação, pois havia uma alteração nos rins em um dos exames.
Na volta à unidade, na segunda-feira, ele foi atendido por este outro médico. Ele descreveu a consulta como ríspida e disse que, ao ser perguntado sobre o problema no rim, o médico se recusou a tratar do assunto e deu o diagnóstico de ansiedade.
“Ele olhou para mim e falou que eu não estava com nada, que era ansiedade[…]. Eu relutei na hora, eu falei ‘ansiedade?’. Ele não gostou muito de eu ter questionado, de ter duvidado do que ele estava falando. E aí o atendimento parou de ser comigo. Minha mãe estava ao lado, ele começou a falar só com a minha mãe e me ignorar totalmente. Ele começou a falar com a minha mãe ‘Ah, mãe, ele tem ansiedade. Isso pode ser ansiedade’. Começou a me diagnosticar com ansiedade, depressão”, conta.
O paciente disse que recebeu medicação para dor no local e depois buscou atendimento em outra unidade de saúde.
Desde então, o jovem faz uso de corticoides e sessões de fisioterapia facial. Ele também conseguiu, pelo posto de saúde, encaminhamento prioritário para neurologista e gastroenterologista. Além disso, a família busca atendimento na rede privada.
Fonte: @g1piracicaba

