ALAGOAS| A família do político Arnaldo Higino, que controla dois municípios do interior de Alagoas, usa dinheiro da educação para pagar agrotóxicos, manutenção de carros particulares, obras fantasn e até reforma de uma arena de vaquejada privada.
Escolas municipais das cidades de Campo Grande e Olho D’Água Grande enfrentam infraestrutura precária.
Os salários dos professores congelados desde 2024, estão 50% abaixo do piso nacional.
Mesmo sem obras em escolas, empresa de construção consome milhões do Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica. Ônibus escolares circulam em condições precárias, enquanto, no papel, recursos são gastos em manutenção.
Em 23 de janeiro, as prefeituras pagaram a uma loja de materiais de construção de Arapiraca por 108 vigas metálicas perfil U e outros itens de serralheria. Cada aquisição, de R$ 8.000, saiu do fundo de Educação dos municípios com pouco mais de uma hora de diferença: às 16h33, de Olho D’Água Grande, e às 17h50, de Campo Grande.
Dias depois, as despesas apareceram nos extratos do Fundeb. Nenhuma das cidades registra reformas ou obras de escolas.
A Folha visitou o parque de vaquejada em 11 de maio e constatou a nova cobertura com vigas perfil U. Outro prédio no local aguarda cobertura e várias vigas estavam no chão, à espera de instalação.
Um dos responsáveis pela obra, sob anonimato, confirmou a compra dos materiais nas lojas Luminex e Aço Líder -as mesmas descritas nos extratos do Fundeb e notas fiscais.
Duas compras idênticas, de R$ 7.840 cada uma, foram registradas em 10 de fevereiro com dinheiro da educação das duas cidades. O material incluía telhas galvalume, tinta e vigas perfil U -material usado na arena de vaquejada que faz falta na quadra da escola de mesmo nome. O Fundeb pagou ao menos R$ 53,8 mil nessas duas lojas desde 2021. Não há indícios de irregularidade das lojas, que não responderam à reportagem.
A Folha teve acesso a cinco notas fiscais de agrotóxicos pagos com dinheiro da educação. Em 2 de julho de 2025, Olho D’Água Grande pagou R$ 2.280 por 20 litros do herbicida Preciso XK. O Roundup Glifosato, da Monsanto, foi comprado em abril e julho de 2024. Em fevereiro do ano passado, uma compra de R$ 5.010,70 incluiu lonas para silo.
Três lojas de produtos agropecuários receberam R$ 222 mil do Fundeb de ambas prefeituras.
Há ainda compras com dinheiro da educação de brita, equipamentos e pneus para Hilux (carros usados pela família) e peças de tratores. Em 9 de setembro de 2025, por exemplo, peças para tratores no valor de R$ 9.142,80 foram adquiridas em Arapiraca também com divisão entre as duas cidades. Uma nota saiu às 11h04, e outra, às 11h35.
A unidade da loja Nascimento Tratores vende apenas peças para tratores, conforme confirmado no local. Os extratos do Fundeb mostram R$ 105 mil pagos, em geral classificados como manutenção de
A escola rural Apolinario G. dos Santos fica a menos de 15 minutos do centro de Campo Grande. Sem pátio ou portão, possui duas salas, uma pequena cozinha e dois banheiros. Alunos de séries diferentes estudam na mesma turma por falta de professor e espaço.
“Precisamos de reforma para garantir um ambiente mais atrativo, melhorar salas, a cozinha. E as crianças não têm espaço de recreação”, diz a professora Edivânia de França, 50, diante de uma lousa deteriorada. Uma parede da unidade ameaça cair. “Não sinto segurança para as crianças aqui.”
Com 28 anos de docência, Edivania recebe R$ 3.640 por mês. O piso nacional é R$ 5.130,63.
“Provavelmente nós temos os menores salários do estado, e um dos piores do Brasil”, afirma Ivan Ponciano, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande. Segundo ele, a negociação não é feita com os prefeitos, mas com Arnaldo Higino.
Em Olho D’Água Grande, a reportagem encontrou, em dia letivo, duas escolas fechadas por volta das 10h30, na comunidade de Ponta da Serra. “Aqui não tem horário para entrar ou sair. Às vezes falta
professor, às vezes merenda”, diz Erica Santos, 30, mãe de dois alunos da escola André Lima.
Na escola Cleonice Claudino, no mesmo povoado, parte do teto de uma saleta que funciona como secretaria e depósito de livros caiu.
Uma construtora recebeu R$ 452 mil do Fundeb de 2025 a março deste ano. Desde 2021, as contas do fundo das duas cidades enviaram para a Construtora Ambiental R$ 4,97 milhões. Desse total, R$ 3,1 milhões foram de Olho D’Água Grande. Não há registro de contrato da educação com a empresa.
O endereço da empresa é uma casa de Arapiraca onde funcionam outras três firmas. Quando a Folha esteve no local, não havia ninguém. O dono, Jean Carlos de Oliveira e Silva, não quis responder aos pedidos de esclarecimentos.
O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) afirmou que a fiscalização cabe aos órgãos de controle. O Tribunal de Contas de Alagoas foi procurado, mas não respondeu.
Fonte: FolhadeSãoPaulo

