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A frase “antes tarde do que nunca”. Quando relacionada à busca pela regionalidade nordestina pela classe média sugere um reconhecimento tardio, mas ainda válido, de algo que por muito tempo foi marginalizado, negligenciado ou considerado inferior, no caso, à cultura nordestina.

Revalorização como identidade e resistência:

Nos últimos anos, há uma virada no olhar da classe média, especialmente urbana e conectada às redes sociais. Ela passou a enxergar a regionalidade nordestina seus sotaques, ritmos, culinária, festas, estética e narrativas como fonte legítima de orgulho e resistência cultural. Ou seja, não mais como algo a ser domesticado ou disfarçado.

Estética e pertencimento como capital simbólico:

A apropriação da cultura regional, especialmente quando feita pela classe média, muitas vezes se dá com um viés estético e simbólico. Vestir-se com peças de renda, ouvir forró “raiz”, frequentar festas tradicionais ou valorizar a oralidade pode virar marcador de estilo ou pertencimento alternativo, sem necessariamente haver uma imersão autêntica nos contextos sociais, onde essa cultura nasceu.

Redescoberta em oposição ao colonialismo cultural:

O movimento também pode ser lido como um reposicionamento político e afetivo frente a décadas de hegemonia do Sul-Sudeste na formação de valores nacionais. Buscar o Nordeste é, nesse caso, romper com um modelo centralizador e afirmar múltiplas brasilidades.

Tensão entre apropriação e valorização:

O “antes tarde do que nunca” carrega um duplo sentido: por um lado, celebra-se a nova valorização da cultura nordestina. Por outro, questiona-se o porquê da demora e as formas pelas quais essa busca está acontecendo muitas vezes com distanciamento, recorte superficial ou sem devolver reconhecimento às comunidades tradicionais.

Em resumo:

A busca da classe média pela regionalidade nordestina reflete um desejo de reconexão com raízes culturais autênticas. Como também expõe contradições sociais, onde o que antes era visto como inferior passa a ser exaltado, mas apenas quando mediado pelo olhar urbano, branco ou elitizado.

Essa virada cultural é importante, mas precisa ser acompanhada de escuta, respeito e reparação. Afinal, como dizia Câmara Cascudo: “O Brasil nasce no Nordeste.”. Mas, só agora parte do Brasil parece querer enxergar.

Por: Danúbia Barbosa, socióloga.

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